e outros escritos

Que você tenha um 2017 com mais VERDADE

Muita gente desejando um 2017 melhor (bem melhor) que 2016 – um ano difícil, sem dúvida.

Eu quero desejar um ano com mais VERDADE.

Estão dizendo que entramos na era da “pós-verdade”, na qual o que importa não é a veracidade das notícias, mas os efeitos delas. Uma era na qual a vida real não importa tanto quanto a vida estampada nas redes sociais. Na qual a realidade é ignorada em vista das opiniões emitidas no Twitter. Na qual, não importa tanto quem você é aí na sua casa, no seu trabalho, nas ruas do seu bairro, mas o quanto você consegue mostrar seus pontos fortes até para quem não conhece em seu Linkedin. No tempo da pós-verdade, mais valem os emoticons acumulados na sua timeline e no seu WhatsApp do que abraços de carne e osso.

Mas, pra mim, aceitar que estamos na era da pós-verdade é como aceitar a falácia de que somos pós-feministas. É uma grande mentira que esconde uma profunda necessidade de viver coisas verdadeiras, apesar e para além das barreiras da Internet. As formas de comunicação mediadas por computador nos deram a chance maravilhosa de estreitar distâncias, conhecer gente de longe e interessante, testemunhar realidades muito diferentes, humanizar um pouco mais nosso encontro com as diferenças… Mas também erguem barreiras à expressão livre e verdadeira dos nossos sentimentos e das experiências reais que temos pra compartilhar. Nesse sentido, somos confrontados o tempo todo com as diferenças do Outro, sem termos tempo e espaço para elaborá-las, para entendê-las de verdade, e construir algo sólido junto com elas. No mundo virtual nos exigem avatares, e que nos apeguemos aos seus contornos – como o rosto que de tanto tempo apegado à máscara acaba tornando-se igual à ela. Nesse mundo, as nuances estão out; a moda é sair de cima do muro e ficar firme nos extremos. É “fechar”, “lacrar”, “fortalecer” os iguais, eleger quem te “representa”. Mas, para isso, as nuances da sua própria experiência e intuição devem ser apagadas. E isso é sufocante.

Em 2016, vi muita gente indo e voltando do Facebook e se esforçando para provar que não precisa das redes sociais, sem contudo conseguir superá-las – o que me faz lembrar daquele verso de Renato Russo “tantas chances desperdicei quando o que eu mais queriaaa era provar pra todo mundo que eu não precisava provar nada pra ninguém”… E eu não acho que esse movimento seja por acaso. Acho que as pessoas estão sufocadas. Como Susan Sontag bem percebeu em seu ensaio “Olhando o sofrimento dos outros”, os excessos da Mídia são paradoxais: nos sufocam com suas meias verdades. Na era da pós-verdade, o que importa não é o que se tem a dizer mas o quanto o efeito da imagem escancarada do sofrimento alheio define você. O que, a princípio parece ser uma total falta de filtro e censura se revela uma grande manipulação do desejo humano de viver com verdade. É por isso que as pessoas se sentem sufocadas, e se esforçam pra sair dessa rede de aço que se tornou a linguagem das redes sociais. Mas há alguma saída para uma vida mais plena, mais íntegra, que escorra por entre essas redes?

Eu acho que a melhor coisa que posso desejar pra você, que ainda me lê, é que encontre suas rotas de fuga para experiências verdadeiras, autênticas, que se “encaixam” com aquilo que você realmente sente e acredita sem fechá-la/o em si mesmo. Que você não se submeta às pressões ideológicas e moralistas que querem te rotular. Que você se permita ficar em cima do muro, quando isso for coerente com o que acredita. Que seja fiel aos seus ideais, sem precisar impô-los aos outros. Que você encontre pessoas e meios de comunicação com os quais a sua verdade possa ser dita e ouvida, e com os quais você possa compreender melhor a verdade do Outro. E isso não significa uma vida sem ficção – pelo contrário, quanto mais verdade, mais criatividade. E é isso que eu desejo pra mim e pra você em 2017: que a gente tenha mais oportunidades de ser-no-mundo com integridade, e que e a partir dessas oportunidades a gente tenha mais experiências criativas, juntos.

Um lindo natal (pra quem é de natal) e feliz ano novo!

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