e outros escritos

Hábito, mudança e intuição na transição para maternidade: #dropsdatese

Entreguei a tese há três semanas atrás e agora estou no processo de marcação da defesa (que será em Portugal depois de vencidas todas as etapas burocráticas!). Estou contando a novidade aos poucos para amigas/os e parentes porque na verdade ainda não me habituei ao fato de que posso voltar a ter uma vida social normal! Então uma amiga querida que acompanha esse meu mergulho profundo na pesquisa sobre maternidade, curiosa sobre meus resultados, pediu pra que eu escrevesse um post no blog sobre a tese. Pensei, pensei, e enfim, acho que não vou conseguir escrever agora um post-resumão sobre a tese, mas dá pra ir soltando aos poucos, em drops homeopáticos, as minhas conclusões. Mas, assim é bom. Assim vai ser mais gostoso dividir as descobertas desse percurso. Aos poucos. Afinal, se contarmos o tempo de preparação do projeto e da candidatura para o doutorado, foram mais de quatro anos de intenso trabalho! É difícil desabituar-se ou criar novas habitualidades a partir da conclusão de um sonho. E é sobre isso que esse primeiro #dropsdatese vai tratar: o surgimento de novas habitualidades a partir da transição para a maternidade biológica; e os próximos devem tratar do atravessamento desse processo pela intuição e o agir em prol de mudança (de si, da família, da sociedade). 

Na minha pesquisa com mulheres de classe média e alta, brasileiras vivendo no Brasil, na França, em Portugal e na Suécia, pude perceber que a entrada no universo do parto (mencionada por alguma das minhas entrevistadas), por exemplo, é um dos eventos marcantes na criação de novos hábitos, e na verdade, de novas habitualidades. A diferença entre um hábito e uma habitualidade é que a segunda é um padrão de hábitos construído pelo encontro de diferentes “planos de passado” e a abertura para o futuro, como menciona a autora Alia Al-Saji – filósofa feminista, fonte da qual bebi muito ao longo da pesquisa. Ou seja, ao deparar-se com serviços de saúde, discursos na mídia, na família, no dia dia, em torno da gravidez e da preparação para o parto, as mulheres passam a perceber (e perceber da forma mais corporal, visceral, possível) que há todo um “universo” sobre nascimento com o qual precisam se habituar. Muitas das minhas entrevistadas desenvolveram então o hábito de ler sobre maternidade, especialmente sobre parto e amamentação, em livros, revistas e na Internet. Esse novo tema é incorporado a rotina a partir das demandas delas mesmas em compreender esse universo complexo e super-explorado das transformações corporais ligadas à gravidez. Assim, ler e discutir sobre o tema da maternidade passa a ser uma forma de tornar inteligível um desejo que era primordialmente um “desejo de presença” – que o filósofo Hans Gumbrecht explora nas experiências estéticas e atléticas. Porque a gravidez e o projeto da maternidade vem muitas vezes na esteira de um processo existencial mais longo, e experiências de presença são cada vez menos propícias nas culturais contemporaneas, nas quais domina uma “cultura de sentidos” – ou seja, tudo tem que ter uma explicação racional, tem que ter causa e efeito previsíveis e ser reconhecível nos cânones da ciência. Para o gênero feminino, nas classes mais favorecidas, a maternidade passa a ser uma oportunidade de ter experiências de presença num mundo dominado pelo racionalismo.

Isso não é assim para todas as mulheres, mas está bem circunscrito a uma classe social, especialmente tratando-se de Brasil, uma vez que para mulheres com pouco acesso a serviços perinatais, que tem filhos mais novas, que tem poucos recursos para regular a própria fertilidade, o parto não é percebido como um divisor de águas subjetivas; geralmente ele é vivido como mais um evento no percurso da subjetividade, não mais importante do que, por exemplo, a busca por vagas em creches ou por se manter estudando e trabalhando. A “luta” pelo parto normal, natural ou humanizado é vivida por algumas mulheres de classe privilegiada como um marco nessa entrada para a maternidade porque elas estão investidas nesse projeto de serem mães como fruto de uma fluidez e autonomia corporal que tem tudo a ver com o acesso à contracepção e aos recursos privados de saúde, cuidado e educação, com os quais estão habituadas. Assim, se antes elas tinham uma habitualidade que incluía o controle da fertilidade, que passa quase imperceptível de tão integrada em suas vidas, agora começam a incorporar hábitos de auto-cuidado ligados a gravidez e a um novo ser humano em potencial – o bebê – já marcado de uma identidade mesmo antes de ter o corpo formado. Esses novos hábitos são alimentados por demandas intergeracionais e de gênero, também quase imperceptíveis de tão naturalizadas naquilo que é socialmente definido como “ser mulher” e “ser mãe”. Lembrei agora do relato de uma adolescente no consultório; ela me disse que, entre as meninas de sua idade está se tornando muito comum ginecologistas prescreverem anticoncepcionais para regular a menstruação. Então, aos quinze ou dezesseis anos, mesmo que ainda não façam sexo, as meninas como ela começam a incorporar o hábito de tomar um comprimido diariamente e de esperar que assim o ciclo menstrual seja sempre previsível. Paralelamente, elas podem se sentir mais tranquilas para começar a transar sem medo de engravidar, mas também tiram de foco os efeitos a longo prazo desse tipo de medicalização. Assim, o controle da fertilidade é uma habitualidade, transmitida de geração em geração, entre as classes mais favorecidas. E justamente por ser habitual, é algo “esquecido”, naturalizado, entendido como fácil e acessível a todas.

Por outro lado, o universo discursivo do parto é associado a esse ideal do “auto-controle” de forma paradoxal, porque no Brasil, a realidade da mortalidade materna é gritante. Mesmo que as mulheres não tenham conhecimento claro dessa realidade (por exemplo, muitas vezes elas não sabem que são as pretas, pardas, indígenas, adolescentes, residentes do Norte e Nordeste que morrem e sofrem muito mais no parto, principalmente pela falta de acesso à medicalização), essas gestantes privilegiadas tem uma bagagem perceptiva sobre nascer no Brasil. Elas sabem que nascer no Brasil ainda é um evento de risco, porque passam pela vida ouvindo histórias de pessoas próximas ou distantes que viveram mortes ou/e grande sofrimento no parto, e porque os discursos mais presentes na mídia e nos consultórios médicos enfatizam esses riscos como se fossem inerentes ao parto vaginal e não como frutos de uma realidade social. Então, mesmo que não tenham tido a experiência de fato de parir, durante a gestação e com o encontro com esse universo paradoxal do parto, muitas mulheres da classe média e alta se vêem numa nova “paisagem perceptiva”, e se posicionam de acordo com a “presença social” a qual tem acesso. Chamo de presença social as presenças físicas, morais, temporais, que as mulheres percebem em torno de si e da criança, a partir da teoria feminista da Ética do Cuidado. Isso ficou mais claro pra mim quando comparei as presenças em torno da transição para a maternidade nas realidades européias.

Na Suécia, não há essa representação social do parto como evento de risco. Lá o que predomina é a realidade do parto como processo natural, o que facilita a mudança perceptiva das brasileiras que antes tinham medo e depois passam a encarar os riscos da maternidade de forma mais leve. Porém, não é assim com todas. Esse “discurso do natural” (como relatado por uma das minhas entrevistadas, mãe de gêmeos) acaba entrando em choque com a bagagem das brasileiras e de imigrantes africanas, por diferentes motivos. Essa entrevistada, por exemplo, ouviu de um médico sueco durante uma consulta de urgência que “parto não é doença! As brasileiras que vivem em favelas dão à luz em casa!” Então, também entrevistei mulheres nesse país que apesar de desejarem o parto normal estranharam muito o fato de que a primeira consulta com a parteira (médicos apenas em casos de urgência ou em gravidez identificada como de de risco) só pudesse ser agendada depois de passados três meses de gestação. Ao se deparar com o conselho da enfermeira para “só voltar quando não tiver mais o risco de perder” e enquanto isso manter o segredo sobre a gestação, uma das minhas entrevistadas ficou mais ansiosa e se sentiu ainda mais solitária em seus primeiros meses como imigrante no país. Para uma sueca guardar esse segredo até a gravidez “vingar” não é um grande sacrifício porque, como já discutido em outras pesquisas, ela não vive tão intensamente o risco real da perda como uma brasileira e depois se sente recompensada pelo círculo familiar e de amizades que vão celebrar sua fertilidade. Ser mãe na Suécia é uma função social muito valorizada, inclusive no mundo do trabalho – porém, não é assim tão simples entre as imigrantes, que tem muitas dificuldades para se inserir na nova cultura. Como disse uma outra entrevistada (aquela que ouviu a pérola do médico sueco), essa representação da gravidez e do parto como “natural” acaba produzindo uma “banalização do corpo da mulher”, ou seja, uma banalização do próprio conhecimento corporal de cada mulher, que inclui sua cultura, suas habitualidades e diferentes formas de viver esse período. Enquanto isso, no Brasil, essa banalização ocorre quando os obstetras se apropriam de todas as decisões sobre o parto e invalidam o desejo de parir.

Já em Portugal, encontrei brasileiras que decidiram pela cesariana por causa do medo do parto normal como é usualmente praticado lá (com muitas intervenções). Porém, nesse país há uma margem um pouco maior de “negociação” entre o que as gestantes trazem em suas bagagens e o que sistema oferece. Entrevistei uma brasileira que já tinha tido um primeiro filho em Recife, Pernambuco, fruto de uma gravidez precoce e de um casamento “mal sucedido”, como ela me relatou. Ela tinha muito medo de estar grávida e de parir, porque já tinha experienciado uma cesariana no Brasil, já tinha incorporado uma percepção do nascimento como evento de alto risco – não por acaso – e se sentia muito desconfortável com todas as mudanças corporais da gravidez. Assim, ela conseguiu negociar uma cesariana eletiva com 40 semanas de gravidez, acompanhada por uma médica particular numa maternidade pública. Nesse país a mistura entre ofertas públicas e privadas de saúde é um pouco parecida a do Brasil, ainda que bem menos cesarista e mais igualitária. Outra entrevistada deixou de ter medo quando soube que o acesso a anestesia peridural é considerado um direito nesse país. Saber que ela tinha o direito de ter a anestesia e conhecer previamente todos os recursos que a maternidade oferecia foi fundamental para ela desistir de ir fazer uma cesarea agendada no Brasil. A partir desse contato com o serviço de saúde, ela desenvolveu o hábito de ir a foruns virtuais dar seu relato de parto e encorajar as brasileiras a buscarem o parto normal com anestesia pelo SUS.

A percepção pode ser modificada, e é. É no processo de quebra das habitualidades que essas mudanças podem surgir. A intuição pode ser aí uma quebra de habitualidade que se mantém aberta ao novo, que não enrijece mas abre a percepção. Porém, quando essa intuição é sufocada por presenças sociais opressoras, que desvalorizam o saber da mulher sobre o próprio corpo e que exigem que ela estude, leia, prepare-se racionalmente para fazer boas escolhas, essa quebra na percepção habitual pode se tornar um problema. Acontece que, em busca de acolhimento em grupos de apoio ao parto e à maternidade, principalmente na Internet, o que muitas vezes as brasileiras percebem é que é necessário “lutar contra o sistema” para ter uma experiência positiva no parto – experiência de “fluidez do corpo próprio” em referência à filósofa feminista Iris Marion Young. E, nesse caso, lutar contra o sistema pode acabar incluindo negar a transmissão transgeracional de hábitos de auto-cuidado, como aqueles transmitidos pelas mulheres mais velhas da família que viveram o boom da medicalização, e inclui muitas vezes conflitos com os parceiros homens, com médicos e profissionais de saúde habituados a trabalhar sob a ótica do “controle do risco”, o que também reproduz antigos conflitos de classe, já que as soluções privadas acabam aparecendo como se resolvessem um problema que é estrutural. Então, ao mesmo tempo em que essa entrada na maternidade que passa pela “luta pelo parto dos sonhos” (expressão usada por algumas das minhas entrevistadas) pode ser emancipadora, principalmente em relação à opressão de gênero, também pode ser bastante debilitante e desestabilizante, por colocar as mulheres em situações de muita solidão e uma auto-cobrança para tomar as decisões certas baseadas em “evidências científicas”. A pesquisadora Candace Johnson chegou a mesma conclusão comparando a escolha do tipo de parto entre Canadá, Estados Unidos, Mexico, Cuba e Guatemala. Mas, vou deixar pra entrar mais nesse tema do agir no próximo #dropsdatese.

Quero lembrar da frase de uma outra entrevistada que teve uma cesariana no Brasil depois de planejar e alimentar o desejo pelo parto normal. Vivendo uma situação familiar muito difícil com a própria mãe muito doente, na qual ela não se sentia “emocionalmente preparada para continuar grávida”, essa mulher decidiu agendar o nascimento da filha e carregava ainda uma culpa por não ter sido suficientemente “empoderada” para esperar pelo parto vaginal. Mas, então, durante uma de nossas conversas ela disse intuitivamente: “mas podemos falar de empoderamento quando se oferece segurança à mulher para parir, aí sim podemos falar de empoderamento” – ou seja, não é insistindo para que as mulheres leiam, estudem, saibam as últimas evidências científicas sobre nascimento que propiciamos mais experiências positivas (e “de presença”) com o parto, mas melhorando os serviços de saúde, a forma de atender e acolher as gestantes, enfatizando seus direitos e valorizando seu conhecimento sobre o próprio corpo e situação, com uma presença social favorável à fluidez do corpo próprio. Um dos maiores exemplos disso, na minha tese, é de uma brasileira que vivia na França e teve acesso a uma maternidade muito bem equipada tanto para eventuais urgências quanto para atender partos naturais. Ela é uma mulher com doutorado, engenheira, que poderia ler e estudar tudo desse universo científico do parto, mas sua preparação não foi nessa direção, mas foi propiciada pela presença da própria maternidade, onde fez um curso com todas as informações sobre os recursos que teria durante o trabalho de parto, para alívio da dor, para se movimentar, para ter acompanhamento. E ela teve acompanhamento do parceiro e foi atendida por parteiras qualificadas que passavam para ela a segurança que precisava para “participar ativamente” do parto. Teve a anestesia que pediu, no momento oportuno, num ambiente acolhedor, que em nada lembrava uma sala de cirurgia, mas dentro de um grande hospital em que teria acesso a uma UTI se precisasse.

Não dá pra entrar em detalhes de tantas outras histórias que escutei e acompanhei, nesse post, infelizmente – afinal foram 30 mulheres entrevistadas, sendo 24 acompanhadas através de diários. Mas com esse post, queria falar de como passei a entender a escolha pela via de nascimento não como resultado de muito ou pouco conhecimento das mulheres sobre parto e nascimento, nem apenas como resultado de uma pressão social, em mão única, mas do confronto com a própria habitualidade de auto-controle e autonomia corporal – comum entre brasileiras de classes privilegiadas. Ou seja, as primeiras experiências de transição para a maternidade também são fruto de um conhecimento visceral sobre o próprio corpo e a realidade social na qual ele está inserido – conhecimento que não é exatamente racional mas intuitivo. Porque nossos corpos não estão separados da realidade que percebemos. Eles vivem, sentem, se conformam a essa realidade a partir dos hábitos.

No fim das contas, escrevi demais e sinto que não consegui ser muito clara! Mas, está valendo! Aos poucos vou me acostumando falar sobre os resultados da tese…

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