e outros escritos

A força do vitimismo

Como se mede a força de uma pessoa? Pessoas fortes são aquelas que não transparecem sofrer? São aquelas que falam assertivamente o que sentem? Que enfrentam às adversidades como se nada fossem? São inabaláveis?

E quanto às pessoas frágeis? São aquelas que choram por tudo? Expressam seus sentimentos sem pudores? Sofrem à céu aberto, pra todo mundo ver?

Não necessariamente. O nível de força emocional não tem a ver com um certo tipo de personalidade apenas. Mas com as estratégias habituais que a pessoa desenvolve, de forma consciente (reflexiva) ou pré-reflexiva. Essas estratégias estão ligadas a certos contextos, situações nas quais o corpo se move ou se estabiliza, ao longo da história pessoal.

Muito se fala de certo vitimismo feminino. E falamos dele como uma fraqueza, pois de fato se contrapõe ao que idealizamos como emancipação feminista. Mas se olhamos atentamente, de perto, como essa estratégia é construída em relação ao contexto da mulher em questão, é fácil perceber a força, o enorme esforço implicado nela. Uma psicóloga feminista, Janine Corbeil, discutindo a teoria de outra psicóloga, Elaine Kepner, discutiu alguns estágios de vivência identitária das mulheres na década de 1970, começo marcante das terapias feministas no Canadá e nos Estados Unidos. Nos dois primeiros estágios, que não são necessariamente excludentes, as mulheres adoeceriam porque começam a ganhar a consciência de sua situação de opressão de gênero, tendo mais clareza das exigências dos papéis tradicionais femininos, e assim “aceitam” essas exigências e se submetem às elas, entrando em depressão e evitando refletir sobre tal situação, ou partem para um estágio seguinte, no qual se revoltam, mas atribuindo a responsabilidade de seu sofrimento e emancipação ao opressor. Em ambos estágios, as mulheres não teriam desenvolvido uma identidade positiva, evitando relações autênticas e abertas com um ambiente mais amplo, no qual homens e grupos sociais diversos são presentes. Elas se manteriam numa “identidade vitimista”, como estratégia de se proteger desse ambiente externo e potencialmente opressor, mantendo-se reclusas na vida doméstica (e exercendo poder sobre crianças e empregadas domésticas) ou se fechando em grupos exclusivos de mulheres com as quais se identifiquem profundamente. Em ambos os casos, o vitimismo não é um sinal de fraqueza simplesmente, é uma estratégia de sobrevivência, que, em certos contextos, acaba se perpetuando facilmente.

Em minha experiência, percebo que o vitimismo esconde vulnerabilidades, como o medo de se relacionar de forma autêntica e de se projetar claramente no mundo, mas também se reproduz associando-se à outras relações de poder. Por exemplo, mães que se armam desse tipo de vitimismo para justificar atitudes homofóbicas, racistas, discriminatórias de maneira geral, não são incomuns. Recentemente vi o documentário Bichas, no qual um dos rapazes conta como sua mãe o submeteu a uma violenta terapia de “mudança de orientação sexual”, ainda criança – mesmo sendo ela mesma lésbica, em segredo, por décadas. Vivendo décadas de um segredo como esse, com muito medo da discriminação que ela e seu filho poderiam sofrer, essa mãe acabou oprimindo a ambos. Já encontrei jovens lésbicas que se privam de viver abertamente sua sexualidade porque suas mães aparentam sofrer muito com isso, chorando em público, deprimindo-se, isolando-se, exigindo uma presença de suas filhas que as impede de viver uma relação integral com suas parceiras. Já ouvi parceiras de homens que violentaram seus filhos justificarem sua falta de reação com o medo e a culpa – o que em muitos casos tem elementos pragmáticos, mas que não deixam de ser usados no silenciamento da dor da criança em questão. Também já testemunhei situações nas quais mães privam seus filhos radicalmente do convívio familiar e escolar por causa do medo das “más influências” – posição tomada inclusive por algumas mães feministas que pretendem proteger suas crianças da opressão de gênero. Em muitas famílias, a exploração das empregadas domésticas é também justificada por esse tipo de “fraqueza”, pela “necessidade”, “incapacidade” da patroa, e pela “exigência” do marido “ganha-pão” opressor.

Em todos esses casos, o que toma a superfície é uma aparência de dor, de sofrimento, de fraqueza, da mulher em questão, que quase imobiliza as outras pessoas mais vulneráveis, envolvidas na situação, especialmente as crianças. Enfim, se a estratégia de manter-se sob a identidade de vítima parece eficaz em evitar o confronto com certas formas de violência, acaba, muitas vezes, por ferir outras pessoas mais vulneráveis. E quanto a isso, não podemos afirmar que falta força à essas pessoas. É claro que homens também podem desenvolver esse tipo de vitimismo, embora ele seja mais socialmente aceitável quando expresso por mulheres. Mas, indepentende de gênero, o que eu gostaria que ficasse claro com esse texto é que falar de força ou fragilidade é sempre relativo, inserido em contextos. Note-se que não estou falando de vitimização – um fenômeno social, com o qual as mulheres são de fato vitimadas por várias formas de violência, geralmente perpetradas por homens. Mas, mesmo vivendo situações de violência, o caminho para uma identidade positiva e uma vivência mais autêntica com o mundo passa pela possibilidade de superar o vitimismo e usar estratégias mais honestas com nossos pares e com as pessoas que se situam em posições mais vulneráveis. A força mais interessante é aquela que não se baseia na supressão da alteridade.

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