e outros escritos

Mama says de Ibeyi, Tune with the infinite de Jay Electronica, e Babel de Iñarritu

Pegue essa música, pegue essa melodia, e fique com ela, enquanto você lê esse texto. Babel é um de meus filmes preferidos.

Hoje, finalmente li o e-mail da minha irmã caçula, no qual ela me indicava uma dupla de cantoras chamada Oshum. Gostei, mas não me impressionei. Através delas cheguei à Ibeyi e ao clipe lindíssimo Mama says: “the man is gonne and mama says she can’t live without him”, no qual uma cadeira vazia sob uma lâmpada é alternadamente ocupada pela mãe e suas filhas. Cantam juntas, abraçam-se, choram: “how can I tell her how I feel?… It really hurts me… that she makes herself feel so bad”. Um canto yoruba consola a família diante da falta. Leio que elas cantam “Elegua” que seria um orixá da comunicação… sou ignorante na religião, e não sei ao certo por que, mas esse canto me toca. Então passo à outro vídeo delas, uma versão também linda da música Better be in tune with the infinite, do rapper militante negro e mulsumano Jay Electronica, com um arranjo que me lembra algo muito familiar, mas na hora não consigo reconhecer.

Meu marido me chamou pra assistirmos juntos Birdman or: (The unexpected virtue of ignorance) do diretor Alejandro González Iñarritu, o mesmo de Babel e 21 Gramas (dois que fazem parte de meus filmes preferidos e muitas vezes vistos). Mas, eu não sabia. Eu não sabia que Birdman era dele, e que nele um homem aleatório recitaria a maior pérola da minha noite:

“Tomorrow, and tomorrow, and tomorrow, Creeps in this petty pace from day to day to the last syllable of recorded time, and all our yesterdays have lighted fools the way to dusty death. Out, out, brief candle! Life’s but a walking shadow, a poor player that struts and frets his hour upon the stage. And then is heard no more. It is a tale told by an idiot, full of sound and fury, Signifying nothing.” (de Macabeth, Shakespeare)

Então lembrei de onde eu conhecia aquela melodia de Better be in tune with the infinite: é de Babel. Puta merda.

“Staring out the windows is for love songs and house flies… I’ve got something to say… Yesterday is gonne, tomorrow is on the way.”

A música é uma resposta profundamente crédula à triste falta de sentido presente em Macabeth e em algumas das personagens de Iñarritu.

Eu tenho algo a dizer; não consigo ter tamanha fé. Eu vejo histórias se repetindo. Eu vejo mães que não conseguem sobreviver com a cabeça fora d’água depois da perda de seus homens. Eu vejo luto em muitos olhares femininos e negros. E eu continuo admirando a fé de quem consegue se alimentar com as lutas do passado e vingá-las. E eu até consigo fazer um pouco da minha parte, não ficar apenas na janela me lamentando. Mas eu estou aqui nessa posição tão humanamente desconfortável e talvez nisso haja algo divino. Talvez seja a minha capacidade de aceitar esse estado de dúvida, constante, e que me coloca sobre essa bancada diante da vista, entre o salto e o medo, como na cena da adolescente japonesa em Babel, e em sua versão cínica, a personagem de Emma Stone em Birdman, que se equilibra na sacada e cospe num anônimo que passa. Essa não pode ser a única alternativa de resposta da minha geração.

Há algo de muito humano e talvez de divino na dúvida e na ignorância, e na comunicação.

*originalmente escrito em junho de 2015

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s