e outros escritos

Ativismo feminista e saúde mental: uma carta para mulheres

Este texto poderia ser um chamado à sororidade, solidariedade, empatia – e suas derivantes. Mas não é. Não é um texto normativo, que define formas seguras e cuidadosas de ser ativista entre e para mulheres. Bem que esse é um tema importante, mas não é o meu foco agora. Quero falar com você, mulher que se encontrou com o feminismo, que começou a se engajar, a se envolver, a participar das causas que mais te importam. E que no meio disso tudo, começou a sofrer muito de uma forma que você nunca tinha sofrido antes. Ou que começou a sentir o retorno daqueles sintomas antigos, que você sentia na adolescência, que mexiam com tua concentração, tua capacidade de organizar sua vida, de trabalhar, de se relacionar com quem você ama, que roubam tua espontaneidade… Quero falar com você que tem se cobrado em ser uma mulher “empoderada”, forte o suficiente para carregar os estandartes do feminismo por onde quer que ande, que se sente cobrada, julgada, oprimida… não só pelo machismo, mas pelo ativismo(!).

E você se pergunta: como eu posso me sentir tão oprimida… com esse aperto no peito, essa falta de ar, essa desorganização mental, essa tristeza… pelo feminismo?!

Eu quero te dizer que você não precisa levar tudo tão a ferro e fogo… como diria minha sábia mãe. Que a palavra, a escrita e a falada, a gritada nas manifestações, a confessada aos ouvidos das parceiras de luta, ela não é palmatória. Defendemos o feminismo com as palavras, enquanto nos reconstruímos, repensamos tantas coisas, refletimos nossas escolhas e contingências. Escrever, especialmente, é um exercício de reaprender e redesenhar as fronteiras. Não é porque você adquiriu toda uma gramática nova, feita de textos feminista, que há uma conversão instantânea. Você carrega sua história, antes de carregar qualquer bandeira, afinal. Não se sinta culpada se a régua da coerência te condena. Que discursos sejam analisados e criticados! Que mulheres ativistas sejam acolhidas e fortalecidas! Não há ativismo maior do que o cuidado mútuo.

Admiro muito as ativistas que tem enviado cytotec pelo mundo, alcançando mulheres desesperadas que tem medo de serem presas por precisar fazer um aborto. Admiro as que se oferecem para cuidar da sua criança e da sua casa, enquanto você vai à luta, lutar pelo sustento da sua família, contra a negligência do pai de seus filhos. Admiro as que te acompanham no parto, de graça, porque você não tem como pagar pela assistência nem tem acesso ao SUS. Admiro as que vão ao SUS, à defensoria, à delegacia, à porta da creche pública, juntando-se as suas causas.

Não se coloque como vítima das que fazem o oposto disso. Não receba as palavras delas como réguas ou palmatórias, como julgamentos, rótulos, linchamento público. Nem sinta medo de ser rotulada. Não é disso que se trata o ativismo feminista.

Infelizmente, os mesmos maus hábitos que carregamos pela vida afora trazemos para os ambientes de luta coletiva. Mesmo buscando alternativas, mesmo no esforço por exercer empatia e compreensão. Somos falhas. Em alguns momentos, nossos dedos sedentos de apontar o agressor, se enrijessem demais contra as nossas companheiras. E isso não nos faz mais poderosas, apesar de nos dar essa ilusão. Ter muitos likes em posts do facebook, ver seus tuites compartilhados, receber muitos e-mails e comentários de outras militantes e de machistas raivosos parece ser sinônimo de SUCESSO! Mas, ativismo não é como produto comercial, que traz mais lucros de acordo com o alcance da propaganda. Propaganda enganosa dá muito lucro pra quem quer instrumentalizar o feminismo. Mas, não muda em nada a realidade. Então, você, mulher engajada, sedenta de ouvir outras mulheres e precisando se expressar, não caia no mito do feminismo de internet… A internet é uma ferramenta do feminismo. Mas não o contém.

Então, não se angustie se teve sua vida incompreendida, sua escrita censurada, por causa de algumas palavras na internet. Palavras podem ter o peso da existência, mas o peso da existência pode ser leve. Já dizia Kundera da insustentável leveza do ser.

Então, não caia na obsessão por justificar cada escolha, cada passo, cada mancada que você dá. Receba as críticas às palavras e não à sua própria existência. Você é muito mais do que seus gritos. E depois tem o perdão, que você pode se dar e pode pedir. Tem a possibilidade de amansar seu ego diante de seus próprios limites.

Se tem uma coisa que te faz adoecer é a angustia constante de não ser totalmente assimilada pela gramática feminista. Mas, lembre-se: uma gramática é sempre viva. Ela não está aí para ficar na ponta da tua cabeça, pesada, endurecendo teu pescoço, enquadrando teu caminhar.  Se teu ativismo te faz mal desse jeito, repense-o.

Escrevi esta carta porque tenho visto mulheres angustiadas chegando ao consultório de psicologia sem entender de onde afinal vem todos esses sintomas de sofrimento, logo agora que se sentem tão empoderadas! É certo que alguns deles vem das contra-reações de familiares, colegas de trabalho e cia que ainda esperam vê-las na antiga forma, ignorantes quanto ao machismo. Mas, muitas vezes, soma-se a essa realidade difícil a dureza das demandas de certo tipo de ativismo. Ativismo que rouba autenticidade e coloca mais um jugo sobre os corpos femininos. Mesmo que você não consiga chegar à uma psicoterapia, mesmo que não se sinta à vontade para procurar apoio psicológico, leve essa carta em consideração. Não se prenda a um sofrimento desnecessário. Você não precisar ser mártir para dar valor a uma causa, qualquer que seja ela! Eu sei que isso, dito assim, parece até meio óbvio. Mas, eu também sei que na ânsia por sentir-se viva, parte de um movimento tão “humanizador”, às vezes você pode colocar em cheque teu próprio sentido de existência e ao invés de acolher os fluxos potencializadores, você pode sentir o teu desejo se apagar. E eu estou aqui pra te dizer, não deixe isso acontecer. Peça ajuda. Saia dos ambientes que te oprimem. Encontre-se com o ativismo vivo.

Uma resposta

  1. Parabéns pelo texto! Ótimo saber que não é preciso carregar pedras ou agradar aos outros e ferir a si próprio! Mais AMOR menos dor! Que tal trabalharmos o sentimento de rejeição?!😉 Isso liberta! UM BEIJO!

    maio 4, 2016 às 2:11 pm

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