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As mães devoradoras

É tão difícil falar das mães devoradoras que é mais fácil observá-las, contemplá-las, como a um objeto de arte. Graças à Niki de Saint-Phalle podemos nos dar ao luxo de nos aproximarmos dessas criaturas sem sermos devoradas/os…

Les mères dévorantes

Foto tirada em 2015, Grand Palais, Paris

Em seus pratos, um bebê desmembrado e imóvel, e um crocodilo. As mães devoradoras de Niki de Saint-Phalle imobilizam suas/seus filhas/os. Tentam consumi-las/os, com sua própria falta de mobilidade.

Mas, quem seriam essas mulheres opressoras? Na França, são vistas como arquétipo de mães que sufocam a individualidade dos filhos com amor, tamanho amor que não deixa espaço para a criatividade e a autonomia. Elas são sempre muito criticadas. São usadas como explicação para toda sorte de mal que acomete o desenvolvimento psíquico. São uma persona à espreita, pronta para devorar com toda ansiedade e desespero os sonhos de liberdade de si e dos outros. Nervosas, sofredoras, mas bem maquiadas. Elas sabem representar. São teatrais, como era a mãe de Niki, para disfarçar o desejo de tudo consumir e sumir com essa casa sufocante, esse corpo pesado e dormente. Elas são vítimas e de tão vítimas se tornam ameaçadoras. Mas, elas não existem. Ou existem em cada um/a de nós como o símbolo da morte sorrateira.

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Foto tirada em 2015, Grand Palais, Paris

No Brasil, eu diria que as mães devoradoras são mais do que um arquétipo. Elas são uma constante cultural. Continuam a nos espreitar. Somos seduzidas por elas. Parece tão lindo, tão redentor, tão realizador ser uma mãe que tudo faz pelos filhos, tudo doa, tudo que possa cercá-los e tirá-los o ar! Por ser a outra face da mãe sacrificial, inspirada no arquétipo de Virgem Maria, a mãe devoradora não recebe muitas críticas. Seu poder de sedução é ainda maior. Filhas/os, esperamos que elas sejam sempre muito presentes, disponíveis, que praticamente não tenham vida própria. Mães, resistimos a seus exemplos e ao mesmo tempo nos espelhamos nelas.  Elas ocupam um espaço ainda pouco ou nada apropriado pelos homens, e por isso talvez sejam tão requisitadas.

Foto tirada em 2015, Grand Palais, Paris

Foto tirada em 2015, Grand Palais, Paris

Eu acho que todo amor carrega um pouco de devo(ra)ção. Amar é também desejar ter, possuir, alimentar-se do objeto amado. Como disse Niki: “somos todas mães devoradoras”. A questão está em amar outras coisas, outros mundos, outras pessoas. Senão, produzimos vítimas de nossas próprias carências. Como Niki sentiu-se vítima de algumas mulheres devoradoras, tentou romper com esse ciclo amando de forma desmedida a arte. Até que ela pudesse se reconciliar com a maternidade, imaginou, esculpiu, desenhou várias facetas da mulher maternal, até redescobrir-se uma mãe real que ora flerta com o desejo de tudo controlar ora resiste a ele lançando-se no mundo.

 

Obs: as três imagens são fotos de esculturas de Niki de Saint Phalle, exibidas na exposição do Grand Palais em 2014 e 2015 em homenagem a artista, à qual tive o privilégio de visitar.

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