e outros escritos

Breve comentário sobre uma explicação para o autismo

Nesta semana várias mídias norteamericanas divulgaram um estudo que nega a possível associação entre uso de antidepressivos durante a gravidez e o autismo na prole. Ou seja, o estudo americano diz provar que não há maior risco de autismo para crianças cujas mães biológicas usaram antidepressivos durante a gestação. Mas o mesmo artigo sugere que esse risco aumenta quando se trata do uso desses remédios antes da gravidez  ou quando as mães tem histórico de psicoterapias. Com isso, Dr. Perlis e seus colegas insinuam que é mais provável explicar o autismo pela depressão da mãe do que por um efeito colateral químico do antidepressivo. O que os jornalistas não estão dizendo, ao divulgar tal estudo, é que esse pesquisador declarou conflito de interesses em seu artigo original, por ter recebido verbas e ter participado de comitês científicos de oito empresas farmaceuticas.

Uma das reportagens, por outro lado, traz uma comparação interessante desse estudo com outro muito maior e sem conflitos de interesses realizado no Canadá. A pesquisadora Anick Bérard tem publicado diferentes artigos com resultados impressionantes sobre o risco aumentado de autismo e malformações congênitas em crianças cujas mães tomaram antidepressivos inibidores da serotonina na gestação, investigando inclusive as dosagens e os períodos mais críticos. Ela explica que a falta da serotonina nos estágios de formação do tubo neural do feto pode ter efeitos graves. Os dois estudos tem desenhos diferentes, por isso é difícil a comparação. Mas, enquanto o americano é composto de cerca de 5 mil crianças, o canadense acompanha uma coorte de mais de 150 mil nascidas desde 1998 na província do Québec.

Um outro estudo, dinamarquês, citado inclusive por Dr. Perlis e seus colegas, afirma não ter encontrado um aumento significativo do risco de autismo para crianças cujas mães tomaram antidepressivos na gestação – mas explica que pode haver um aumento desse risco inferior a 61%. Os pesquisadores dinamarqueses também salientam as limitações de seu estudo, tendo em vista a pequena porcentagem de crianças diagnosticadas com sintomas do espectro autista em sua amostra, apenas 0.9%, quando nos EUA estima-se uma prevalência de mais de 5%! (Isso seria relacionado à banalização dos antidepressivos nesse país?) No Québec, ela é de apenas 0.7%. 

Faço esse comentário para questionar como certos mitos continuam se propagando pela divulgação científica mal feita: se o estudo americano não achou o risco relacionado ao uso do remédio na gestação, não tomou o mesmo cuidado ao afirmar que uma explicação mais plausível seria a depressão materna. Ou seja, aquela velha e batida explicação, muito mal explicada, por sinal, de que bebês desenvolvem autismo (e outras doenças mentais) por causa de falhas no vínculo com as mães biológicas. Essa hipótese se baseia em outra também carente de mais explicações: o de que se uma mãe está deprimida, seu bebê não poderá ser bem cuidado e estar vinculado a outra(s) pessoa(s) de forma suficientemente boa. Nesse caso, o estudo deveria incluir dados sobre quantos bebês de mães com depressão no pós-parto realmente desenvolvem autismo e ver se a associação é maior do que na população geral.

Eu não sou contra mulheres fazerem uso de antidepressivos quando necessitam, pelo contrário. Sou totalmente a favor delas receberem tratamento completo e adequado. Saúde mental é fundamental na vida de qualquer pessoa, e remédios usados de forma adequada, assim como alimentação e exercícios físicos, podem contribuir para melhorar muito a qualidade de vida, e até para evitar que a depressão se torne crônica e traga outros transtornos. Acho muito pertinente o uso racional de antidepressivos. Mas, infelizmente, a banalização deles acaba produzindo uma inversão de expectativas e desconfianças. Não é raro que as pessoas tenham medo ou preconceito em usar medicação psiquiátrica, que desconfiem das influências da indústria farmacêutica na medicalização da vida, que resistam a se tratar e que acabem fazendo usos dos remédios de forma emergencial e sem orientação correta. Eu não acho que uma mulher grávida deva ficar sem tratamento durante uma depressão. Mas, eu acho fundamental que os efeitos colaterais dos diferentes tipos de tratamento e doses sejam melhor pesquisados e esclarecidos, e que a psicoterapia seja considerada de forma central e não apenas periférica.

Também acho temerário que pesquisas médicas continuem sugerindo que a causa para os mais diversos problemas de saúde nos bebês seja o “problema de vínculo” com as mães. Essa hipótese nunca foi de fato profundamente analisada, até porque para fazer isso, antes, é necessário definir o que é “vínculo” e como mensurá-lo! Essa suposições, jogadas assim como obviedades, produzem culpa, reforçam a opressiva regulação e controle dos corpos e subjetividades maternas, e reificam a ausência paterna nos primeiros períodos de vida como se os pais não fossem tão necessários quanto as mães. Afinal, quantos estudos se propõem analisar as relações entre ausência paterna e autismo? Quantos levantam hipóteses sobre efeitos deletérios das falhas de vínculo entre homens e seus bebês?

Uma resposta

  1. “Faço esse comentário para questionar como certos mitos continuam se propagando pela divulgação científica mal feita”
    É o mal dessa era onde a ciência está prioritariamente mercantilizada perdendo sua essência vital de desvínculo com dogmas. Por isso eu acho a epistemologia tardia e ultra-necessária. Isso está prejudicando muitas pessoas que ainda confiam em veiculadores de estudos científicos, ignorando o quão despreparados ou desonestos mesmos são esses indivíduos. Linka-se os artigos fontes, mas eles mesmos provam que o veiculador nem leu direito o artigo. E temos para piorar tudo os lobistas.
    Estou num ponto bem crítico de definir o rumo da minha carreira. Não sei se sigo relaxando na Física ou se sigo para epistemologia. Precisamos de seriedade e compromisso com a ciência. Eu diria até que o compromisso com a ciência já é compromisso com o ser humano. Já entre o compromisso com a ciência e o compromisso com o bem-estar de indivíduos, bem-estar de mulheres para ser mais direta, prevalece-se aquela frase satreniana adaptada por mim aqui “a humana está condenada a ser livre” pois Beauvoir mesma bem lembrou “que nada nos sujeite, que a liberdade seja a nossa essência”.

    janeiro 12, 2016 às 9:39 am

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