e outros escritos

Que diferença faz uma perspectiva feminista na psicoterapia?

A Psicologia Feminista não é uma abordagem exclusiva que demanda anos de formação, não é uma linha específica da Psicologia Clínica. Na verdade ela é um conjunto de críticas e revisões quanto às teorias e práticas mais conhecidas da Psicologia, a partir da questão central das relações de gênero e de outras questões sociais que se interrelacionam na construção dos gêneros. A principal crítica que ela levanta é sobre o modelo de “sujeito normal” construído a partir da valorização de características historicamente masculinas, e que produz um modelo antagônico construído majoritariamente a partir de características historicamente femininas. Segundo diferentes abordagens psicológicas o processo de desenvolvimento das mulheres é visto como “incompleto”, “ambivalente”, “refratário”, restrito por aspectos biológicos, incluindo aí o “destino” da maternidade, e inferior se usarmos como referência os ideiais de “indivíduo” a partir do universal masculino.

Mas, na prática, o que isso significa? Significa que independente do tipo de psicoterapia proposta, a psicóloga* feminista vai manter uma reflexão crítica em relação a sua própria formação, entendendo que a maioria das teorias aprendidas por ela foram estruturadas como parte das desigualdades de gênero, classe e raça que também estruturam experiências e subjetividades. Isso significa que a psicóloga feminista vai reler Freud, Jung, Lacan, Hegel, Merleau-Ponty, Sartre, Rogers, Beck, e outras referências, com um olhar crítico, buscando entender de que maneira tais teorias e suas respectivas técnicas acabam reproduzindo e reforçando as desigualdades mencionadas, e desenvolvendo novas formas de valorar diferentes modelos de subjetividade encontrados na clínica.

Não é fácil fazer isso. E, na minha opinião, essa é sempre uma tarefa incompleta, porque não é simples perceber quais são os mecanismos de reprodução das relações de poder dentro da clínica, já que nós, psicólogas fazemos parte delas. A clínica psicológica é uma instituição histórica, e assim está ligada a modos históricos de especialista e paciente se relacionarem; modos que se repetem, se reproduzem, mesmo em diferentes contextos. Isso implica, por exemplo, na enorme dificuldade das mulheres terem suas demandas acolhidas da forma como se apresentam. Ao invés disso, vemos frequentemente como o lugar de “suposto saber” de analistas e demais terapeutas acaba revestindo essas demandas com as cores e formas de suas referências teóricas. Mas, se tais referências são em si mesmas parte do problema, como usá-las?

Não é que toda teoria seja ruim, e toda técnica seja reprodutora do poder. Há sim muito conhecimento útil e interessante produzido pela Psicologia, mas como eu disse, esse conhecimento precisa ser revisado a partir da crítica feminista para não ter como efeito colateral a repetição das relações de poder. Então, como psicólogas estamos sujeitas a essas repetições; mas não sem estranhar, intuir, resistir! Ao longo da história da Psicologia muitas de nós se envolveram com questões sociais importantíssimas, participando do ativismo pelos direitos das mulheres, pelos direito civis e humanos etc, e assim, confrontando suas visões de mundo com os conhecimentos da Psicologia. Dedicadas à essa tarefa importantíssima, ao invés de se absterem da prática terapeutica, elas tem se arriscado a experimentar e teorizar sobre suas experiências, ensinado-nos princípios fundamentais para uma prática psicológica com perspectiva feminista.

Resolvi então listar aqui alguns desses princípios que tenho aprendido no grupo de estudos em Psicologia Feminista que comecei a coordenar este ano e com as leituras para minha tese, mas também com a prática clínica no meu consultório e nas experiências que tive no serviço público. Abaixo da lista, vocês podem ver as principais referências que inspiraram este post.

A Psicoterapia Feminista é…

  • Uma prática que se embasa na visão crítica da Psicologia como saber construído em contextos específicos, e como tal, busca entender como esse campo contribui para as desigualdades de gênero da sociedade onde é exercida;
  • Uma forma de revisar o “sujeito psicológico” da clínica, desconstruindo modelos de normalidade baseados na subjetividade historicamente masculina;
  • Uma terapia que vê as relações de gênero como estruturantes de experiências, comportamentos, percepções, sentimentos, etc que aparecem na clínica;
  • Uma prática não-hierárquica, que coloca terapeuta e paciente no mesmo “nível”;
  • Uma prática que desconstrói a “neutralidade” da terapeuta, e favorece que ela desenvolva uma relação autêntica e honesta com a/o paciente;
  • Uma prática que chama a/o paciente para participar ativamente das hipóteses explicativas de sua demanda/sofrimento e do processo de sua mudança/tratamento;
  •  Uma terapia que ajuda a/o paciente a perceber as relações de poder nas quais está implicado e como elas produzem sofrimento e estão relacionadas às suas demandas;
  • De maneira geral, as terapeutas feministas se preocupam com problemáticas psicológicas relacionadas às opressões sofridas pelas mulheres, como as violências doméstica e de gênero.

Referências:

Al-Saji, A., & Ryman, E. (2013). Feminist Phenomenology, Race, and Perception : An Interview with Alia Al-Saji. In: http://www.rotman.uwo.ca/feminist-phenomenology-race-and-perception-an-interview-with-alia-al-saji/
Rutherford, A., Capdevila, R., Undurti, V., & Palmary, I. (2011). Feminisms and Psychologies: Multiple Meanings, Diverse Practices, and Forging Possibilities in an Age of Globalization. In A. Rutherford, R. Capdevila, V. Undurti, & I. Palmary (Eds.), Handbook of International Feminisms (pp. 3–14). New York, NY: Springer New York.
Nuernberg, A. H., Toneli, M. J. F., Medrado, B., & Lyra, J. (2011). Feminism, Psychology, and Gender Studies: The Brazilian Case. In A. Rutherford, R. Capdevila, V. Undurti, & I. Palmary (Eds.), Handbook of International Feminisms (pp. 109–127). New York, NY: Springer New York.
Evans, K. M., Kincade, E. A., Marbley, A. F., & Seem, S. R. (2005). Feminism and feminist therapy: Lessons from the past and hopes for the future. Journal of Counseling & Development, 83(3), 269–277.
Corbeil, J. (1979). Les paramètres d’une théorie féministe de la psychothérapie. Santé mentale au Québec, 4(2), 63.
Bosch Fiol, E., Ferrer Pérez, V. A., & Alzamora Mir, A. (2005). Algunas claves para una psicoterapia de orientación feminista en mujeres que han padecido violencia de género. Feminismo/s. N. 6 (dic. 2005); Pp. 121-136.
Entrevista com Laura Brown. (n.d.). Retrieved from https://www.youtube.com/watch?v=y1HRPVn16rY

*Esse texto é escrito no artigo feminino mas se refere à todas pessoas que exercem a psicologia e demais leitores que se interessam pelo tema, independente do gênero. A opção por manter o feminino com uma função universal aqui é intencional e parte do reconhecimento de que a maioria das psicólogas são mulheres apesar de a maioria dos teóricos reconhecidos do campo serem homens.

Comente

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s