e outros escritos

Nós estamos grávidos

Uma amiga querida me perguntou quais livros (de ficção ou não) me marcaram durante a gravidez. Foi um exercício gostoso tentar me lembrar, porque de início, eu só conseguia trazer à memória os momentos da leitura pesada de textos acadêmicos do mestrado – que eu esperava terminar antes de Laura nascer, e que acabei defendendo quando ela tinha apenas um mês! Mas, tem um livro que acabei de guardar junto aos outros que chegaram da nossa mudança da França, e que talvez seja o mais antigo da estante. Ele foi com certeza o que mais marcou minha gravidez, não apenas por seu conteúdo mas por ter sido um presente de mãe pra filha, de sogra pra genro, de avó pra neta, e que já tinha sido presente também para minha irmã, mãe de duas crianças um pouquinho antes de mim.

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Peguei o livro da estante, tirei uma foto e enviei pra minha amiga: “lembrei!” Nós estamos grávidos, de Maria Tereza Maldonado, Jean Claude Nahoum e Júlio Dickstein é um livro datado, com uma linguagem própria daquele final da década de 1970, chamando os homens para assumirem a gravidez junto com as mulheres, levantando os problemas do “modismo da cesariana” sem deixar de reconhecer que quando elas são necessárias salvam vidas, falando de tecnologia com humanismo, amamentação, despreendimento, educação. É um livro simples, fácil de ler, quase uma consulta aconchegante com uma psicóloga perinatal, um pediatra e um ginecologista.

Mais do que me ajudar na preparação para a maternidade, ele me fez lembrar de alguns dos gestos de cuidado de minha própria mãe. Foi possível vê-la alí naquelas páginas! Uma pena mesmo que ela não tenha tido um companheiro que assumisse suas gravidezes como recomenda o livro… Pena que ela não teve as condições mais favoráveis para tornar-se mãe, e não tenha tido a presença de outros parentes para ajudar nessa jornada, pena que ela teve que enfrentar sozinha muitas das exigências de seu projeto de família. E mesmo lamentando as pequenas ausências que me marcaram, eu pude confirmar mais uma vez o quanto minha mãe se dedicou a ser a melhor mãe possível. Ela teve amor e dedicação a seu projeto de parir e educar suas meninas, lendo os livros que a ajudaram nesse projeto e até guardando um ou outro para nos presentar. Então mais uma vez, o livro me emocionou.

E a pergunta da minha amiga veio muito bem à calhar, porque tenho justamente pensado nessa relações entre gerações no dia dia do cuidado familiar. As vezes, na ânsia por desenharmos nossos próprios e autônomos projetos de maternidade/paternidade, negamos os valores que as outras gerações tem pra nos doar. E nessa negação, às vezes ignoramos inclusive o valor do gesto em si, da intenção das pessoas em nos ajudar. Nem sempre conselhos são bem vindos, mas quase sempre eles vem com carinho, quando são dados por nossas mães, avós, tias, irmãs mais velhas… Mulheres, em especial, que também viveram as demandas da maternidade. E hoje, não sou eu mesma quem se sente impelida a doar minhas experiências para aquelas que me lêem?

Então, fui procurar um pouco mais de informação sobre a autora Maria Tereza Maldonado, que depois de Nós estamos grávidos, produziu mais de quarenta livros e já palestrou em diversos lugares sobre família e educação. Não acompanhei a evolução de seu trabalho, e não posso julgá-lo. Mas achei um vídeo com ela num programa de tv que tem tudo a ver com as coisas que venho pesquisando e escrevendo. Ela diz: “o sentimento de culpa é comum, mas não é universal (…) os filhos não precisam de uma mãe perfeita, precisam de uma mãe amorosa (…) uma questão importante desse sentimento de culpa também vem da história de que só a gente pode cuidar de um filho, e não é, a questão é a partilha, é a relação do pai, a relação de outras pessoas da família, da equipe da escola, é um grupo de pessoas que também estão cuidando amorosamente da crianças e também estão acompanhando o desenvolvimento”.

Então, mesmo sentindo que não concordamos com tudo que nos é aconselhado, mesmo não conseguindo confiar 100% na forma dos outros cuidarem, e temendo que nossas mães vão se meter demais, ou que nossos companheiros não vão saber cuidar direito, mesmo tendo tanto apego por nossos projetos pessoais de maternidade, podemos fazer um exercício diante das doações que vem com a partilha: experimentar. É experimentando que vamos sentindo confiança, que vamos percebendo os simples atos de amor dos outros, e que também criamos limites e quebramos nossos próprios preconceitos. Todo bebê e toda criança tem capacidade de tolerar e responder à experimentações. Se uma presença não dá certo de certo jeito, quem sabe mudando um detalhe na comunicação, quem sabe mudando o trajeto da escola, o hábito de alimentação, a hora de acordar ou dormir… quem sabe trazendo a criança para participar de perto das tarefas domésticas e dos pequenos gestos de cuidado que fazemos todos os dias e dos quais as excluímos? Maria Tereza também fala no vídeo do quanto podemos criar tempo com os filhos, chamando-os a participar das tarefas de cuidado da casa, da comida, da vida familiar, transformando ambientes adultos em ambientes democráticos, nos quais os pequenos também aprendem e para os quais contribuem. Então, ao invés da culpa, sentiremos paz em poder partilhar, mesmo que sabendo de algumas diferenças de valores e formas de amar.

Os exemplos da minha mãe me deram dois privilégios: o de saber o quanto a partilha faz falta, e o de valorizar os singelos gestos de cuidado, mesmo e principalmente quando eles não são espelhos de mim.

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