e outros escritos

Precisamos falar sobre… depressão pós-parto e licença-paternidade

Do contrário que lemos em muitas reportagens sobre depressão pós-parto, as principais causas dos estados depressivos que acontecem na transição da maternidade não são oriundas de mudanças biológicas próprias da gravidez, do parto e da amamentação, nem são da mudança intensa de identidade que pode ocorrer com o aumento de responsabilidade. Depois de entrevistar e acompanhar alguns dias da vida de trinta mães brasileiras que viveram essa transição em quatro países diferentes, e depois de ler alguns relatos em biografias, romances, artigos científicos, cheguei a conclusão que uma das principais causas da depressão relacionada ao início da maternidade é a solidão, encarada muitas vezes como “necessária”. Os relatos biográficos e os romances, em especial, me ajudaram a desconstruir os preconceitos produzidos pela minha própria área de atuação, a Psicologia. Esses preconceitos colocam a solidão materna como elemento necessário para o laço primordial entre mãe e bebê, como se todas as demais pessoas adultas que podem se relacionar com ele fossem necessariamente secundárias, inclusive o pai.

Uma das leituras que me despertou pra isso foi o romance “Precisamos falar sobre o Kevin” de Lionel Shriver. No livro, Eva, mãe de Kevin, escreve para o marido e pai de seu filho alguns dos detalhes mais sórdidos de sua experiência com a maternidade – que podem ser usados para paradoxalmente desconstruirmos a Eva bíblica subsistente na ideia geral sobre instinto materno. Falando sobre seus primeiros momentos tentando amamentar, diz:

“Já em 1983 eu achava difícil entender por que um rótulo psiquiátrico tão padronizado quanto depressão pós-parto deveria ser considerado um consolo. Nossos conterrâneos parecem depositar uma confiança enorme na etiquetagem de suas mazelas. Presumivelmente, sofrer de uma doença comum a ponto de ter até nome é sinal de que não estamos sozinhos e que há uma série de opções disponíveis, desde salas de bate-papo na Internet até rapsódicas dores de barriga comunitárias de grupos de apoio. (…) Talvez eu tivesse atingido um novo apreço por meus próprios pendores normativos, inclusive devido à expectativa até que razoável de que, ao dar à luz uma criança, eu iria sentir algo, inclusive algo bom. Mas eu não havia mudado tanto assim. Nunca encontrei alívio em ser apenas como todos os demais. E embora a dra. Rhinestein tivesse me oferecido depressão pós-parto como um presente, como se dizer à pessoa que ela é infeliz fosse alegrá-la, não pago profissionais para que me entupam com o óbvio, com o meramente descritivo. O termo era mais uma tautologia que um diagnóstico: eu estava deprimida depois do nascimento de Kevin porque eu estava deprimida depois do nascimento de Kevin. Muito obrigada.” (pág. 106 e 107)

A tentativa de sarar a solidão ligada à depressão com o diagnóstico da DPP, grupos de apoio e foruns de internet não fazia o estilo de Eva. E apesar de ajudar, não suprem a demanda da maioria das mulheres que se sentem tristes quando se tornam mães. Porque esse tipo de solução não se foca nas experiências singulares das mulheres quando se sentem sozinhas enquanto cuidam, enquanto se tornam as principais referências para seus bebês, enquanto preenchem seus tempos quase integralmente com essa relação dual da qual tiram pouca retribuição. As soluções oferecidas na maioria das vezes para essa tristeza tentam manter as mães minimamente funcionais e conscientes de sua importância para a saúde e o bem estar de seus bebês, pois estão focadas na sobrevivência deles. Quase nada é dito sobre alternativas de cuidado e de organização do tempo que permitam que essas mulheres cuidem também de si mesmas, tenham relações mais equitativas com outras pessoas, sintam-se menos culpadas e mais confiantes de que outros adultos podem assumir junto tamanha responsabilidade.

Eva escreve para o marido quando tenta compreender a si mesma, porque a falta de empatia dele e da sociedade de maneira geral não a permitiu falar quando talvez ainda houvesse tempo de evitar a tragédia da qual Kevin seria o protagonista. Num capítulo anterior do livro, ao narrar instantes depois do parto, ela escreve:

“Enquanto eles me davam os pontos, você se ofereceu para levar Kevin de mim e eu sabia que deveria protestar. Mas não o fiz. Ao me ver livre, a gratidão que senti foi desalentadora. Se quer saber a verdade, eu estava com raiva. Estava com medo, com vergonha de mim mesma, mas também me senti enganada. Eu queria minha festa surpresa. Pensei, se uma mulher não pode contar consigo mesma para fazer jus a uma ocasião como esta, então não pode contar com nada; dali em diante, o mundo estava de castigo. Prostrada, com as pernas escancaradas, fiz uma promessa: embora tivesse aprendido a expor as minhas partes privadas para o mundo todo ver, jamais revelaria a quem quer que fosse que o parto não me comovera.” (pág. 104)

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O marido de Eva nunca foi capaz de entender o que ela sentira com a gravidez e a transição da maternidade; ele não conseguia entender os impactos das perdas que ela sofreu para se ocupar integralmente do filho do casal, porque ele mesmo não teve essa experiência, e porque segundo os mitos do instinto materno toda mulher é biologicamente preparada para sofrer essas perdas e mesmo assim sentir-se suficientemente preenchida. Assim, o que quer que vejamos como tristeza e suas variantes mais graves quando uma mulher está recém mãe, naturalizamos de uma forma ou de outra: ou é o tal “baby blues” e não precisamos nos preocupar porque “faz parte do puerpério” ou é a DPP que deve ser tratada como doença psiquiátrica e remediada individualmente. Em nenhuma das duas situações, questiona-se o pai da criança e sua possibilidade de se ocupar de fato dela. Falo aqui diretamente sobre casais heterossexuais, mesmo sabendo que há outros tipos de famílias que também podem passar pelos problemas da tristeza e da depressão após a maternidade, porque quero falar especialmente da licença-paternidade. Eu acredito que o ideal é a licença parental, que não fica baseada no sexo dos pais da criança. Ela já existe em alguns países, independente da licença-maternidade e paternidade obrigatórias (e que são contadas a partir do parto). Mas, no Brasil, alguns projetos tentam aumentar a licença-paternidade, e na falta de um sistema menos binário eu aposto nessa medida como resposta mais eficaz para vários problemas sociais, inclusive a DPP.

No Brasil, a licença-paternidade ainda é baseada no velho direito pátrio dos homens de registrar o bebê – até pouco tempo atrás as mães não tinham esse direito. Então, os poucos dias que lhes são concedidos de ausência no trabalho são apenas para que eles estejam presentes no parto, nas primeiras noites de estadia no hospital, e para irem ao cartório resolver as burocracias. Por outro lado, a licença-maternidade brasileira (que é muito generosa em comparação a outros países industrializados) é baseada na velha ideia de que as mães podem e devem se ocupar sozinhas da criança. Enquanto em outros países, as mulheres gozam dessa licença para poder se recuperar do cansaço e de eventuais intercorrências do parto e da amamentação, e depois se organizam para poder dividir a licença parental com os parceiros, no Brasil, o tempo de descanso das mães é na verdade entendido como tempo de dedicação à criança. E isso é incorporado nas expectativas sobre a maternidade. Muitas mulheres entram em depressão depois do parto por perceberem que o desejo e a capacidade de dedicarem-se aos filhos não vem automaticamente com o nascimento deles. Muitas vezes esse desejo demora a vir e é antecedido pela vontade de descansar, pura e simplesmente. Algo que parece simples, mas que num contexto onde elas ficam sozinhas em casa com um bebê que chora muito e demanda muito, acaba se tornando algo impossível. A falta de tempo e espaço para descansar e para relacionar-se com outras pessoas adultas pode acabar levando ao esgotamento físico e emocional. E a culpa faz o problema piorar. E as alterações hormonais que são típicas do puerpério são intensificadas. Ao invés de questionarem a necessidade dessa solidão na relação mãe-bebê, muitas mulheres questionam-se a si mesmas – e teorias como as da autora de auto-ajuda Laura Gutman, por exemplo, que as incentivam a buscar a “própria sombra” enquanto cuidam, reforçam esse ciclo.

Então, precisamos falar abertamente de licenças parentais igualitárias. Precisamos simplificar aquilo que tem sido complicado por dignósticos como a DPP e suas formas tradicionais de tratamento. Na maioria das vezes que vemos mulheres deprimidas depois da maternidade, elas estão deprimidas depois da maternidade porque estão sozinhas e exaustas de uma maneira que nunca ficaram antes.

Eva decide ser totalmente honesta em suas palavras, porque ela já não tem mais quase nada a perder. Seu filho tornou-se um “monstro” por causa da experiência negativa que ela teve com a maternidade? Ao invés de responder sim ou não a essa pergunta, o livro coloca para a sociedade americana uma série de questionamentos sobre o contexto no qual essas crianças monstruosas são nascidas e cuidadas.

2 Respostas

  1. Carol, excelentes reflexões! Como sempre. Eu queria te mandar um e-mail. Pode me passar um contato seu? Bjos e obrigada,

    outubro 16, 2015 às 12:32 am

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