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A Mãe e o tempo: ensaio da maternidade transitória

“O direito do bebê ao bem-estar e à integridade física, mental e emocional deve ser recolocado como função coletiva, para além das qualidades instintuais de uma mãe biológica sempre presente – e para além da obrigação de mulheres desfavorecidas economicamente. Primeiro, porque já é um fato reconhecido que essa mãe não está sempre presente. Ela não faz mais parte de um clã tribal, onde não se oferecem alternativas de existência que não seja a maternidade. Ela está no mundo, agindo em diferentes esferas. E, muitas vezes, ela não está aí. Ela pode ter morrido. Ela pode ter desistido. Ela pode ter sido apenas um veículo para o nascimento da criança – que é cuidada por outros pais, por outros vínculos. Segundo, porque cuidar de alguém dependente é uma função de alta periculosidade, que exige muita disponibilidade e que portanto deveria ser muito mais valorizada na hierarquia social – babás não são mães postiças que têm obrigação de substituir o laço parental recebendo um salário mínimo. 

Colocar o cuidado no foco da maternidade é transformá-la em prática social ao invés de identidade. E práticas sociais são transitórias, são relacionadas com contextos micro e macroestruturais mais ou menos estáveis, que também sofrem corrosões e permitem o advento da novidade. Isso não significa esquecer as especificidades da gestação e do parto, daquilo que se liga ao corpo feminino, mas desvincular esse corpo da identidade materna e permitir que tanto ele quanto ela se liguem a outras coisas e sejam veículos de diferentes desejos. Se uma mulher quer parir e associar seu parto a uma nova identidade pessoal, a um novo devir, que seja. Se, por outro lado, para isso, ela precisa se identificar com uma identidade prévia de maternidade, com uma lista de preceitos e repetições, desempenhando um papel peculiar na não maternidade alheia, deixa de ser um devir e passa-se a falar, novamente, de um destino. Nesse caso, onde está o lugar para o desejo? Onde está o espaço para se afirmar o desejo de cuidar? Antes, quando ela determinou para si mesma e para a sociedade que gostaria de parir seu bebê naturalmente. E foi interrompida em seu devir quando alguém, com alguma autoridade e credencial científicas ou políticas, disse-lhe que, então, deveria exercer integralmente e solitariamente esse desejo e esse cuidado. Essa mãe passa então a lutar, e coloca aquilo que seria uma dissonância construtiva – a vontade de fazer diferente do mainstream – como parte integrante de sua identidade. Ela coloca-se contra o “sistema” e contra as outras formas de parentalidade, para conseguir assumir um desejo que no fim das contas volta-se contra ela.” (Carolina Pombo, 2013, pág. 52 e 53)

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Capa A Mae e o tempo

5 Respostas

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